quinta-feira, 4 de novembro de 2010

Plantas que curam.



SAÚDE! entrevistou alguns dos mais renomados pesquisadores brasileiros para esclarecer, de vez, como recorrer às propriedades da nossa flora sem correr riscos
Por Adriana Toledo | Design Eder Redder | Fotos Dercílio

“A flora nacional concentra a maior biodiversidade do mundo. São 55 mil espécies catalogadas, o correspondente a 20% do total distribuído pelo planeta”, dispara o médico Roberto Boorhem, presidente da Associação Brasileira de Fitoterapia. Esse tesouro natural é uma oportunidade de avançar na descoberta de novos tratamentos médicos, desde que utilizado com critério científico.

Antes de tudo, apague a crença de que tudo que é natural não faz mal. “As plantas necessitam de recursos químicos para se defender, como alguns alcaloides, que, por serem amargos e tóxicos, afastam predadores, ou óleos essenciais, que atraem aves para a polinização”, exemplifica a farmacêutica Ivana Suffredini, da Universidade Paulista, na capital. “Assim como algumas dessas substâncias podem atuar positivamente no organismo humano, outras provocam sérios danos”, alerta.

Outra confusão que precisa ser desfeita é usar os termos plantas medicinais e fitoterápicos como sinônimos. “Fitoterápicos são remédios, que passam por uma rigorosa avaliação de segurança e eficácia em seres humanos, com uma concentração de ativos padronizada, o que nem sempre ocorre com as folhas para o preparo de chás”, diferencia a geriatra especializada em fitomedicina Rita Ferrari, de São Paulo.

Não quer dizer que a população tenha de abandonar as infusões, respeitando-se algumas medidas de cautela. Com o respaldo de investigações sérias e de anos de uso popular registrados, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) divulgou uma lista de 66 espécies eficazes, com suas respectivas indicações de uso. As plantas mencionadas nesta reportagem aparecem nessa relação e são rotuladas como drogas vegetais. “Esses chás devem ser consumidos somente para alívio de sintomas agudos, sem ultrapassar 30 dias. A utilização prolongada exige o acompanhamento de um médico ou nutricionista”, esclarece Boorhem.

A procedência da planta também requer total atenção. “Algumas espécies são muito semelhantes e facilmente confundidas, o que é perigoso”, justifica Ivana. Você só deve adquirir o produto de farmácias ou casas de ervas idôneas. “A Anvisa já tem uma proposta para regulamentar a venda dessas drogas vegetais”, afirma Douglas Duarte, coordenador de assuntos regulatórios da Associação dos Laboratórios Farmacêuticos Nacionais. “Elas deverão ser comercializadas em embalagens que estampem especificações como alegação terapêutica e orientação de consumo.” O selo do Ministério da Saúde, portanto, será, em breve, mais uma garantia para o consumidor.

Passiflora
Famosa por seu poder calmante, a folha do maracujá entra na fórmula de fitoterápicos e é receitada por especialistas no tratamento de ansiedade. Na Universidade Federal de São Paulo, o psicobiólogo Ricardo Tabach decidiu tirar a prova dos nove sobre sua eficácia. Ele e sua equipe administraram, em roedores, um medicamento à base de passiflora para avaliar não só seu impacto no comportamento dos animais como eventuais efeitos tóxicos. Em seguida, compararam os resultados com a avaliação de cobaias que receberam somente água ou uma droga ansiolítica alopática. “Confirmamos a capacidade da passiflora de diminuir sintomas ansiosos e não detectamos efeitos adversos”, revela. Ainda assim, como todo medicamento, especialmente os que mexem com o sistema nervoso central, sua utilização deve ser acompanhada por um especialista. Entre as espécies de passiflora avaliadas — a incarnata, a edulis e a alata —, a primeira foi a que se mostrou mais eficiente. ››

Nome popular: passiflora
Nomes científicos:
Passiflora incarnata
Passiflora alata
Passiflora edulis
Origem: América do Sul e América do Norte
Forma ideal de consumo: fitomedicamento

Aroeira-do-sertão
Na Universidade Federal do Ceará, a farmacêutica Mary Anne Bandeira elegeu essa espécie para desenvolver uma fórmula fitoterápica contra infecções ginecológicas. “O uso popular da casca de aroeira para banhos de assento no pósparto nos chamou a atenção e resolvemos investigar suas propriedades”, justifica a cientista. “Em laboratório, confirmamos uma atividade anti-inflamatória, que se deve a substâncias chamadas chalconas diméricas”, revela. A descoberta levou ao desenvolvimento de um creme vaginal de uso interno que, posteriormente, foi testado em 20 pacientes com lesões no útero. Elas foram orientadas a utilizar a pomada uma vez ao dia, durante uma quinzena. “Ao final do período, houve remissão das feridas, poupando algumas mulheres da cauterização”, comemora Mary Anne. Por enquanto, o creme à base de aroeira-do-sertão só é encontrado para prescrição no Nordeste.

Nome popular: aroeira-do-sertão
Nome científico: Myracrodruon urundeuva Fr. All
Origem: México, Argentina, Bolívia, Paraguai e Nordeste do Brasil
Forma ideal de consumo: creme fitoterápico de uso interno


Valeriana
Matéria-prima de fitomedicamentos, essa espécie também despertou o interesse do grupo do psicobiólogo Ricardo Tabach, da Unifesp. “Sua ação ansiolítica seria atribuída a um grupo de ativos chamados valepotriatos, que agem no sistema nervoso central”, conta o pesquisador. No cérebro, eles aumentariam a disponibilidade de certos neurotransmissores, aplacando a ansiedade. “Comprovamos esse benefício ao administrar um extrato de valeriana em ratos”, confirma Tabach. O psicobiólogo também citou outro trabalho realizado na Unifesp que revelou uma ação indutora de sono dos ativos da planta. Nem é preciso repetir que a prescrição médica é fundamental — ou é?


Nome popular: valeriana
Nome científico: Valeriana officinalis
Origem: Ásia e Europa
Forma ideal de consumo: fitomedicamento

Boldo-do-chile
O almoço caiu mal? É possível que você já tenha ouvido alguém bem-intencionado sugerir a receita simples: tomar um chá de boldo. Errado: no caso, o calor pode minimizar a ação dos princípios ativos da planta. Ou, talvez, a sugestão tenha sido mais acertada: bater folhas de boldo com um copo de água e beber na hora. Só que a espécie a que nos referimos não é aquela com textura aveludada, que os brasileiros costumam colher no jardim — e sim outra, proveniente do Chile, que de fato ajuda na digestão, como comprovou o levantamento realizada na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), no interior paulista. “A boldina, principal componente do vegetal, estimula a secreção da bile, substância produzida pelo fígado que atua na digestão de gorduras”, confirma o biomédico João Ernesto de Carvalho, do Centro Pluridisciplinar de Pesquisas Químicas e Biológicas da Unicamp. De novo, ele alerta: recorra à bebida somente em episódios isolados de mal-estar. O excesso pode causar intoxicação hepática.

Nome popular: boldo-do-chile
Nome científico: Peumus boldus
Origem: Chile
Forma ideal de consumo: maceração

Carqueja
O time da Unicamp também voltou sua atenção a essa planta tradicionalmente utilizada em chás para tratar problemas digestivos. Ao analisar artigos sobre ela, os pesquisadores não encontraram indícios de toxicidade renal ou hepática, mas há risco de queda na pressão arterial, o que restringe seu uso a pacientes hipotensos ou que já façam uso de medicamentos contra a hipertensão. A boa notícia é que a pesquisa reafirmou as propriedades medicinais da espécie. “Assim como o boldo, a carqueja favorece a produção da bile, facilitando a digestão”, conta Carvalho. Não para por aí. Há registros de redução das taxas de açúcar no sangue, além de propriedades antiúlcera e anti-inflamatórias, que auxiliariam no tratamento de artrites.

Nome popular: carqueja
Nome científico: Baccharis genistelloides
Origem: América do Sul
Forma ideal de consumo: infusão

Alecrim
A neurocientista Daniele Machado, da Universidade Federal de Santa Catarina, já conhecia o emprego popular do chá de alecrim no combate à depressão quando optou por checar esse valor terapêutico em sua tese de doutorado. Ela submeteu camundongos a uma situação de estresse e passou a observar se eles respondiam, de maneira positiva, à ingestão de um extrato alcoólico do vegetal, com características similares às de uma infusão comum. Em seguida, comparou o comportamento dos roedores com o de outros que receberam somente água ou foram tratados com fluoxetina, um antidepressivo clássico da alopatia. “A eficácia da solução foi semelhante à do medicamento”, afirma Daniele. A neurocientista foi além: realizou experiências químicas e elucidou os mecanismos pelos quais a planta atuaria. “No cérebro, ela inibe a degradação dos neurotransmissores serotonina, dopamina e noradrenalina, responsáveis pela sensação de bem-estar”, esclarece. Vale reforçar que, por agir no sistema nervoso central, o uso indiscriminado é contraindicado.

Nome popular: alecrim
Nome científico: Rosmarinus officinalis
Origem: região do Mediterrâneo
Forma ideal de consumo: infusão

Guaco
Aclamadas por aliviar sintomas de bronquite, asma e tosse, as folhas de guaco têm efeito paliativo para casos agudos de doenças respiratórias. É o que mostra um estudo desenvolvido na Universidade do Extremo Sul Catarinense. Para chegar a essa conclusão, o cientista ambiental Tiago Petrucci preparou uma solução alcoólica de suas folhas secas, com perfil semelhante ao do chá tradicional. Na sequência, administrou a bebida, durante sete dias, em ratos com inflamação pulmonar induzida pela inalação de carvão. “Além de não ocorrerem efeitos tóxicos, houve diminuição do processo inflamatório, dilatação dos vasos e ação antimicrobiana”, descreve Petrucci.

Nome popular: guaco
Nome científico: Mikania laevigata
Origem: América do Sul
Forma ideal de consumo: infusão ou xarope fitoterápico

Espinheira-santa
Há séculos empregada pela população em forma de chás, a planta atenuaria azia e mal-estar estomacal. Partindo dessa tradição, o químico João Paulo Viana, da Universidade Federal de Minas Gerais, resolveu checar sua eficiência e segurança. Ele induziu a formação de úlceras no estômago de ratos e, em seguida, administrou um extrato das folhas do vegetal nos animais, por via oral. “Além de constatarmos uma baixa toxicidade, houve aumento de volume e diminuição da acidez do suco gástrico, o que resultou em uma proteção à mucosa”, conta Viana. “O efeito está associado a moléculas identificadas em quantidades expressivas na espinheira-santa: os taninos e os derivados de quercetina e campferol”, diz.

Nome popular: espinheira-santa
Nome científico: Maytenus ilicifolia
Origem: Mata Atlântica brasileira
Forma ideal de consumo: infusão

Erva-baleeira
Seu óleo essencial é matéria-prima de um consagrado fitomedicamento fabricado pelo laboratório Aché: um creme anti-inflamatório de uso tópíco, indicado para aliviar dores musculoesqueléticas e tendinites. Antes de ser testado em seres humanos, o óleo foi objeto de experimentos na Universidade Federal de Santa Catarina, conduzidos por um dos mais reconhecidos especialistas em farmacologia do país, João Batista Calixto. A SAÚDE!, ele resume suas observações: “O óleo promoveu uma diminuição expressiva da dor e da inflamação em animais que haviam sido previamente induzidos ao desconforto”, afirma. “Ao isolar os componentes da erva-baleeira em laboratório, descobrimos que os principais responsáveis por essa ação foram as substâncias alfahumuleno e o transcariofileno, que, entre outros mecanismos, inibiriam a expressão de uma proteína envolvida em processos inflamatórios, a TNF-alfa”, explica. Traduzindo: funciona mesmo.

Nome popular: erva-baleeira
Nome científico: Cordia verbenacea
Origem: do Amazonas ao Rio Grande do Sul. Abundante no litoral da Região Sudeste
Forma ideal de consumo: gel fitoterápico anti-inflamatório


Barbatimão
Típico do cerrado, concentra substâncias de grande potencial cicatrizante. Por isso, tornou-se alvo de interesse do laboratório Apsen, que, após 17 anos de pesquisas, lançou uma pomada à base de seu extrato. Quando foi testada em seres humanos, a fórmula se mostrou eficiente no tratamento de escaras, feridas graves que acometem indivíduos imobilizados por um tempo longo. “Em três meses de uso, o remédio promoveu a cicatrização de ferimentos em estágio avançado, que geralmente requerem cirurgia”, conta a geriatra Rita Ferrari, responsável pelo desenvolvimento do produto. “A casca do barbatimão é rica em taninos, ativos que retraem as camadas da lesão e estimulam a formação de uma película protetora, criando condições favoráveis para a pele se recompor”, explica. O vegetal também apresentou atividades anti-inflamatórias e antimicrobianas, fundamentais para a remissão dos machucados.

Nome popular: barbatimão
Nome científico: Stryphnodendron adstringens Origem: Brasil, especialmente em São Paulo, Pará, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Distrito Federal
Forma ideal de consumo: pomada fitoterápica

Sinal amarelo
Remédios de uso contínuo nem sempre combinam com plantas medicinais. “Alguns ativos dos vegetais potencializam ou anulam os seus efeitos”, avisa Ivana Suffredini. Portadores de doenças crônicas — como as cardiovasculares, as renais, as hepáticas, o diabete, o câncer e a epilepsia — também não devem ingeri-los por conta própria, já que o consumo pode ser tóxico para o seu organismo mais sensível e agravar o quadro. O último alerta é para as grávidas. “Elas jamais devem tomar chás e fitoterápicos sem o médico ter prescrito. Muitos contêm substâncias que contraem a musculatura uterina, arriscando a gestação”, diz a farmacêutica Mary Anne Bandeira, coordenadora do Projeto Farmácias Vivas, da Universidade Federal do Ceará.

Esperança contra o câncer
O primeiro fitoterápico brasileiro contra tumores já está em fase de testes com seres humanos. A Euphorbia tirucalli, espécie conhecida como aveloz, mobilizou grandes hospitais, como o Sírio-Libanês e o Israelita Albert Einstein, ambos em São Paulo, que avaliam, em pacientes graves, a eficácia de um remédio à base de seus componentes no controle do câncer de mama e de próstata. “As substâncias do aveloz desestruturam as células cancerosas e as induzem à morte”, explica o farmacêutico Luiz Pianowski, que coordena pesquisas sobre a planta no laboratório Amazônia Fitomedicamentos. “Seu principal trunfo é atuar de maneira seletiva, poupando células sadias que costumam ser afetadas pela quimioterapia”, destaca. Na opinião do oncologista José Augusto Rinck Junior, do Hospital A.C. Camargo, a droga é uma aposta, mas ainda são necessárias mais investigações que comprovem sua segurança e vantagens em comparação com medicamentos padrão

Do jeito certo
Os chás medicinais são bem-vindos para aliviar sintomas agudos, desde que consumidos em situações pontuais e respeitando as orientações descritas anteriormente. Para tirar proveito da infusão, siga as recomendações de preparo: verta água fervente sobre as folhas e, em seguida, abafe o recipiente por cerca de cinco minutos. Coe e beba. No caso de partes mais rígidas da planta, como cascas, é preciso submetê-las a um processo de decocção, que consiste em uma fervura durante dez minutos. Para obter mais informações sobre doses e modos de preparo, acesse o site de SAÚDE!

Fonte: Renata Rocha, Supervisora de Garantia de Qualidade do Laboratório Apsen, em São Paulo. Eliana Bufaino, Gerente de Inovação do Grupo Centroflora, em São Paulo. Infográfico Eder Redder e Bruno Algarve. Produção Inah Ramos


FONTE:http://saude.abril.com.br/edicoes/0329/medicina/plantas-curam-604100.shtml?pag=1

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